quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

O Invencível.

O invencível.


Ele achava que as vitórias em sua vida deveriam ser pautadas pelos esforços desprendidos de sua própria convicção. Acostumado apenas com os louros, aquela alma infeliz nunca encarou outra possibilidade.

Pois bem, em uma vida que se preze as vitórias nunca devem subestimar os aprendizados de uma simples e desprezível derrota incalculada.

Então com todos os impropérios oferecidos pelo gosto egocêntrico de suas vitórias, nosso pobre personagem se tornou um homem muito poderoso. De vitórias em vitórias construiu um verdadeiro império. Nada e nem ninguém poderia ser capaz de suspirar-lhe a mais doce das palavras na altura em que se encontrava.

A disputa desde sempre se estacionou em sua vida.

Na escola só a nota dez lhe importava. O menino mais pobre que se sentava na carteira ao seu lado, despertava-lhe o medo de se tornar um dia igual. O garoto que se acomodava a sua frente, somente por ter a caderneta escolar repleta de notas tão azuis quanto às dele, provocava-o o mais insano dos desejos. Apenas as vitórias moviam suas insensíveis emoções.

O tempo passou. Aquele menino escolar se tornou um jovem universitário. Suas motivações, no entanto, afloraram-lhe pretensões de ter uma vida ambiciosamente luxuosa, custasse o que for.

Ele se formou impecavelmente. No acervo de notas da faculdade, nunca ninguém havia conseguido terminar um curso com aquelas médias tão bem sincronizadas. Sua monografia apresentada foi sugerida para publicação. Todos os professores se impressionavam com seu talento.

Tão pouco saiu da universidade e já conquistara seu primeiro emprego. Em dois anos conseguiu alcançar um cargo de confiança dentro da multinacional. Todos dentro da grande empresa, já sabiam que aquele jovem rapaz se tornaria um quadro importante no mercado de ações.

Um determinado dia, depois de ministrar uma aula sobre produção de serviços, fora presenteado pelo presidente da empresa com um cacto.

Conhecido por ser uma planta de grande resistência a tempos rigorosos, aquela simples lembrança se tornou um significado na vida do nosso infeliz personagem.

Por qualquer sala que passasse ou endereço que morasse, aquela planta passou a acompanhá-lo por toda sua trajetória, pessoal ou profissional.

Sua vida se tornara preenchida por apenas fazer-se acompanhada de uma planta espinhenta, com 30 centímetros de altura e torneada por um verde, que de tão bem tratada, se tornou bastante vistosa.

Ele enfim alcançou o que sempre almejara na vida. Agora como presidente da multinacional, todo aquele luxo que sempre esperou que fosse cercar suas aspirações pessoais, se tornou tão presente como a resistência única de anos de convívio com sua companheira pequena planta.

Tornou-se um homem poderoso e influente.

Porém em um dia cinzento, com pequenas pancadas de chuva, observou que sua planta que o acompanhara até ali, amanhecera com seus espinhos caídos sob o jarro de porcelana que a sustentava e tornava ainda mais vistosa.

Ainda pôde observar que o corpo de sua tão amada planta estava todo tomado por grandes e profundos cortes maçados, que tornavam a aparência do vegetal muito semelhante à de uma folha seca caída de uma árvore no outono.

Desesperadamente ordenou que uma de suas secretárias ligasse urgentemente para o seu especialista em plantas, Dr. Rui Botânico.

Doutor Rui assim que soube da preocupação do nosso desassossegado personagem, abandonou a aula que estava dando e pegou a primeira ponte área que pôde.

Assim que chegou a sede da multinacional, Dr. Rui foi encaminhado diretamente para o gabinete presidencial onde nosso personagem e sua planta o aguardavam.

No primeiro contato que teve com a planta, Dr. Rui adiantou para o nosso personagem a notícia mais terrível que ele em tempo algum poderia ter imaginado.

Sua única e tão bem tratada companheira havia contraído cochonilhas mortais e encontrava-se em estado final, já no berço da morte.

Assim nosso invencível personagem se viu diante de sua primeira, única e dolorida derrota. Não imaginava até aquele dia, que a vida em algum momento fosse capaz de lhe retribuir tantos anos de disputas, dedicação e vitórias com aquela dor infinita.

A partir daquele dia, sua vida nunca mais foi à mesma. Talvez por não ter sido jamais surpreendida com uma tristeza.

Então como num conto de natal, ele aprendeu que por mais vitoriosa, forte e poderosa possa ser uma pessoa, uma derrota (por mais simples que seja) é necessariamente fundamental na vida de quem quer que seja.

Feliz Ano Novo para todos e todas!!!!