quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Bailes blacks

Bailes blacks


O funk, caracterizado por um segmento musical provindo de uma sonorização imediata da raiz africana surgiu nos EUA no final dos anos 60 – com um conceito transcendente de negritude.

A soul music emergiu dos anos 60 descrevendo de forma intima e única as experiências de vida dos afro-americanos.

Muito embora a maioria das músicas do repertório soul não fossem destinadas às causas do movimento pelos direitos civis – que estavam em curso nos EUA dos anos 60 – a comunidade negra adotou tal estilo como símbolo de orgulho negro e consciência racial.

Originados do gospel, doo-woop e rhythm and blues (R&B), a música e o estilo soul iniciavam a década de 70 envolvidos pelo funk da geração seguinte.

Nos anos 70, em plena ditadura militar, no elegante bairro de Botafogo – mais precisamente na casa de espetáculos CANECÃO – foram realizados os primeiros encontros que posteriormente viriam a ficar conhecidos como bailes funk.

Nestes bailes reuniam-se todos os finais de semana cerca de cinco mil jovens, vindos de todos os cantos da cidade, que entre outras músicas esperavam ansiosos para ouvir os principais sucessos cantados por James Brown, Wilson Pickett, Kool and Gang e Slay and Family Stone.

Estes encontros domingueiros, denominados BAILES DA PESADA, e idealizados pelo saudoso Big Boy e Ademir Lemos, em virtude de algumas restrições impostas pelos diretores da casa, que supostamente passaram a privilegiar apresentações de artistas da MPB, foram transferidos para os clubes do subúrbio do Rio, mesmo gozando de muito sucesso e aceitação de público.

As restrições impostas, que cominaram com a transferência dos BAILES DA PESADA para o subúrbio, não condiziam com a resposta do público que lotava o Canecão dos ditatoriais anos 70.

As escolhas em privilegiar apresentações de artistas da MPB, como Roberto Carlos, por exemplo, implicava em assegurar um conservadorismo nacionalista exacerbado da época.

As músicas politicamente rebeldes de James Brown, que embalavam um público de todos os lugares da cidade, definitivamente não poderiam continuar sendo executadas no coração da cidade nos conhecidos anos de chumbo.

No subúrbio, estes bailes embalados pelos sucessos da música negra norte americana puderam contar com a receptividade calorosa de um público bastante empolgado com as realizações daqueles encontros musicais próximos as suas casas.

Em pouco tempo os bailes suburbanos se multiplicaram.

Alguns de seus freqüentadores assíduos passaram a montar suas equipes de som para animar pequenas festas em seus bairros e logo estas pequenas equipes passaram a circular de bairro em bairro acompanhada de seus cativos e fieis seguidores, possibilitando, assim, o surgimento de diversas equipes de som como a Revolução da mente, Uma mente numa boa, Black Power e Soul Grand Prix.

Não demorou muito para que estes encontros reproduzissem verdadeiros eventos de massa, recaindo na música negra norte-americana uma função coletiva de identificação racial e grupal entre seus freqüentadores.

Proliferaram-se dessa maneira enormes encontros populares, divulgados apenas pelas equipes nos finais de semana de cada baile e por cartazes espalhados pelo subúrbio.

Surgiam assim os bailes blacks.

Mais de trinta anos se passaram desde os famosos bailes blacks, e hoje, com suas diferenças comportamentais e transformações musicais, os populares bailes funks assumiram o protagonismo na diversão da juventude pobre do Rio de Janeiro.

Politizados ou não, atualmente nenhum encontro de massa é capaz de mobilizar tantos jovens favelados como os bailes funks. Talvez por essa razão, e diante da permanente criminalização da pobreza, estes encontros populares assumiram um caráter político e se tornaram alvos freqüentes de leis, matérias jornalísticas e comentários que invariavelmente os criminalizam e os empurram para a ilicitude e o preconceito.

Mas felizmente e no puro talento, o funk esta aí mobilizando cada vez mais jovens e contribuindo para a integração de realidades tão distantes e paradoxalmente muito próximas.

Dos bailes blacks aos bailes atuais a única coisa que verdadeiramente não pode parar é o funk!

Fonte: Funk, o batidão proibido. – www.anf.org.br.

(Artigo publicado no último némro do Jornal A Voz da Favela)