sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Parte, bem pequena, da entrevista de Cecília Coimbra para a Revista Discursos Sediciosos.

Parte, bem pequena, da entrevista de Cecília Coimbra para a Revista Discursos Sediciosos, ano 15, números 17/18, ed. Revan.


DS: Conta como foi a história recente do movimento contra a tortura, quer dizer, fala um pouco da história dele.


O Grupo Tortura Nunca Mais surgiu em 85, no primeiro governo Brizola, muito em função de denúncias contra pessoas do aparato de repressão que estavam no governo Brizola. O interessante foi que o Nilo Batista, que sempre foi do governo, desde daquele primeiro em que estava como secretário de Justiça, até por ter tido uma experiência com familiares de presos políticos, sempre ficou muito junto com a gente desde o inicio. Ele foi o nosso primeiro assessor jurídico, depois ele indicou o Arthur Lavigne.

O Surgimento da gente tem a ver com uma questão específica aqui no Rio de Janeiro, que depois se expande para outros estados, que é a questão da não punição aos torturadores. Torturadores ou pessoas que tinham ocupado o aparato de repressão ou lidado indiretamente ou diretamente com a tortura, ou então ocupavam cargo de confiança, então essa foi nossa primeira grande luta.

Em 85, o grupo Tortura Nunca Mais surge e agente começa a se articular. Então o grupo emerge naquele momento, no inicio da Nova República, muito com esta palavra de ordem - luta contra a impunidade.Ontem eu estava fazendo exatamente esta análise na reunião, faz 23 anos, hoje nó estamos em outro momento. Nós não percebemos isso nos anos 90, quando o capitalismo começa a funcionar de outra forma.

DS: Eu Acho que em 95 fica clara essa passagem da democracia, quer dizer, a cilada da democracia, e como a questão vai se deslocando dali para o crime comum e como a esquerda não entende até hoje.


Eu dizia que nós tínhamos que começar a pensar na violência hoje, os dispositivos são os mesmos, são os autos de resistência, a banalização da tortura, a questão do extermínio, estes dispositivos têm tudo a ver com a ditadura. Quer dizer, esses dispositivos continuam sendo utilizados contra a pobreza, como sempre foram. Nós tivemos visibilidade, a pobreza não.

Eu peguei os editoriais dos quatro grandes jornais daquela época, desde o inicio de 94, e fui vendo como foi produzida e aplaudida aquela operação. Tudo foi colocado e desqualificado como uma coisa moral. " Vivemos uma guerra, a criação do pânico e do terrorismo". Essa ligação que a esquerda não fazia que pobre é sinônimo de criminoso. E como essa produção que vem desde o século XIX, a questão da periculosidade, a idéia de que no pobre está o perigo, o crime, você não percebe e acaba naturalizando, a própria esquerda dizendo que era um questão de estrutura, de classe, quer dizer, como se o pobre fosse um carente ou criminoso.

DS: Acho que tem a questão da visão que a esquerda tem do lúmpen. O lúmpen é o desqualificado, desclassificado, posto fora do projeto revolucionário marxista…

A pobreza digna e a pobreza indigna. A pobreza digna era aquela que tinha que ficar em controle constante, teoria da homogeneidade. A pobreza indigna era aquela perigosa, que não trabalhava. Nós continuamos a criminalizar a pobreza, isso está muito enraizado.

DS: O Estado Previdenciário já foi. Podemos pensar no poder punitivo como algo mais amplo que o sistema penal.

A minha militância me ajudou muito, foi o momento em que eu comecei a perceber a naturalização e a criminalizarão da pobreza.

Ontem me disseram que existe uma pesquisa falando que, nos países que passaram por ditaduras recentes e em que houve punição rigorosa para seus torturadores, a violação de direitos humanos diminuiu. Eu nunca ouvi falar disso, ouvi falar justamente do contrário. Que penas de morte e penas rigorosas não influenciam na criminalidade. Este é o paradigma da tolerância zero. É o exemplo do castigo. É como se na punição as coisas funcionassem.

Na realidade as pessoas não tem muito argumento sobre a pena, sobre a lógica da punição, da vingança, do olho por olho e dente por dente, então elas se agarram a argumentos, de que o terrorismo de Estado é diferente, de que o os países que puniram seus torturadores diminuíram a violação dos direitos humanos.

E ai o Edson Passeti tem toda a razão quando fala em participação, porque hoje não se fala mais em democracia, fala-se em democracia participativa; quanto mais se fala em direitos, em ética, mais se moraliza, mais se retiram os direitos do sujeito, ficamos como meros clones. O dogma da pena está incubado na esquerda.

DS: Ficamos em utopia.


Acho que os torturadores da ditadura têm que ser responsabilizados e publicitados pelos seus atos, mas não tem que se falar em punição para eles. Não me interessa levar ninguém para o tribunal.