“A aprovação no Congresso argentino, por ampla maioria de votos,
do projeto de lei que declara que “a fabricação, distribuição e
comercialização do papel de imprensa é questão de interesse público”,
reforçou ainda mais os ataques dos dois principais jornais argentinos, o
La Nación e o Clarín, contra a presidente Cristina Kirchner.
E isso porque, assim que entrar em vigor, a nova legislação
argentina irá tirar o papel de imprensa do férreo controle desses dois
jornais, que controlam o capital da Papel Prensa. O Clarín tem 47% das
ações, o La Nación outros 22%, enquanto o Estado argentino é dono de
27%. Os restantes 4% estão pulverizados entre pequenos acionistas.
A fábrica é a única a fornecer o papel utilizado pelos jornais e
revistas do país. De um consumo médio de 230 mil toneladas anuais, a
Papel Prensa produz e distribui 175 mil toneladas. Outras 55 mil são
importadas, isentas de impostos. Controlar 75% desse mercado, como faz a
Papel Prensa é exercer, de fato, o monopólio.
A nova lei, além de declarar de interesse público a fabricação,
distribuição e importação do papel de imprensa, estabelece exigências
que vão da expansão da capacidade da Papel Prensa à aplicação de um
preço único, sem levar em conta a quantidade adquirida pelos
compradores. Isso significa que um pequeno jornal do interior pagará o
mesmo preço cobrado ao Clarín, que vende em média 400 mil exemplares
diários e 700 mil nos fins de semana.
Hoje, o Clarín e o La Nación consomem 71% da produção da Papel
Prensa. Os outros 29% vão para 168 publicações, que pagam pelo menos
15% a mais do que é pago pelos dois maiores jornais do país. E mais: ao
controlar o capital da fábrica, Clarín e La Nación sabem, com certa
antecedência, quando o preço do papel vai subir, e antecipam compras
grandes, forçando um aumento nas importações. Todas as outras
publicações argentinas pagam a diferença.
Outro detalhe do negócio: a Papel Prensa compra, para reciclar,
os exemplares não vendidos tanto do Clarín como do La Nación, pagando
900 dólares a tonelada. Apenas esses dois jornais vendem seus encalhes à
Papel Prensa. Os outros vendem no mercado avulso, a um preço bastante
inferior.
Atualmente, a Papel Prensa opera com apenas 60% de sua
capacidade. Quando a nova legislação entrar em vigor, será determinado
de imediato um aumento na produção, até o país alcançar sua autonomia.
Serão estabelecidas metas de investimento a cada três anos. Caso os
dois jornais, que detêm a maioria da Papel Prensa, não cumpram sua
parte, o Estado cobrirá a diferença, aumentando sua participação no
capital da empresa. Por isso, o Clarín e o La Nación acusam Cristina
Kirchner de ter armado uma tramóia que permitirá que o Estado assuma a
empresa.
É assim que o monopólio controlado ao longo dos últimos 34 anos
pelos dois maiores jornais argentinos começará a desmoronar, e esse
desmoronamento será veloz. É fácil entender a ira do Clarín, do La
Nación e de todos os barões da imprensa latino-americana, a começar
pelos do Brasil.
Difícil é entender que não se diga, às claras, que o
que está sendo ameaçado é um negócio espúrio, embora de ouro, e não a
sacrossanta liberdade de expressão.
Difícil, além disso, é entender as razões claramente falaciosas
de tantos protestos indignados, todos eles tendo como bandeira a
liberdade de imprensa. Afinal, mesmo que se admita que deixar o
controle do papel de jornais e revistas nas mãos do Estado possa ser
uma ameaça, manter esse mesmo controle nas mãos de dois grupos privados
hegemônicos seria um meio eficaz de assegurar essa tão ameaçada
liberdade? Será que os métodos aplicados pelo Clarín e pelo La Nación à
concorrência asseguram essa liberdade?
Não é necessário mencionar a desfaçatez com que o Clarín
distorce o noticiário e sabota informação através de seu formidável
poderio, que vai de emissoras de rádio à internet, passando por jornais
regionais, revistas e o domínio praticamente absoluto da televisão por
cabo. Bastaria recordar a maneira com que, sempre em associação com o
La Nación, impõe regras draconianas e imperiais sobre a publicidade
privada.
Nas críticas que tanto um como outro lançam, furiosos, contra o
governo, sempre há amplo espaço para denunciar a concentração da
publicidade oficial em meios que são, em maior ou menor medida,
simpáticos ao governo.
Essa concentração realmente ocorre. Mas falta recordar que tanto
o Clarín como La Nación se jactavam, até há pouco, de sua recusa
sistemática a aceitar publicidade oficial em suas páginas, salvo raras
exceções. No caso específico do Clarín, José Aranda, vice-presidente do
grupo, diz que um terço da receita vem de anúncios classificados,
outro terço da venda de exemplares, um terço mais de anúncios
convencionais. Portanto, diz ele, a publicidade oficial não faz falta.
Além disso, os dois jornais têm uma regra comum para a venda de
seus respectivos espaços de publicidade: os grandes comércios e
indústrias que anunciarem nos dois, e somente nos dois, têm um desconto
de 50% sobre suas tabelas. Quem se dispuser a anunciar nos outros
jornais, ou seja, nos que se alinham com o governo, perde esse
desconto.
O que acontece na Argentina é mais profundo e complexo do que
parece. Existe, sim, uma clara pressão do governo, mas não sobre a
liberdade de expressão e de informação: o que se trata de combater é a
liberdade de pressão e de deformação.
Além do mais, paira sobre a Papel Prensa a denúncia de um crime.
Há indícios mais que concretos de que a única fábrica de papel de
imprensa do país foi parar nas mãos do Clarín e do La Nación graças à
ditadura militar que seqüestrou, ameaçou e torturou familiares de David
Gravier, que era seu sócio majoritário e morreu de forma misteriosa em
agosto de 1976, quando o terrorismo de Estado estava no auge (um auge,
a bem da verdade, que durou até 1983).
Foi assim, na base de crimes de lesa-humanidade, que a Papel
Prensa foi parar nas mãos dos donos do Clarín e do La Prensa. Os mesmos
que, beneficiados por um regime sanguinário e corrupto que ajudaram a
construir e, depois, a manter, agora acusam um governo eleito
democraticamente, e reclamam o sacrossanto direito da propriedade
privada.” (Eric Nepomuceno, de Buenos Aires)
http://www.tijolaco.com/mais-sobre-o-papel-de-e-da-imprensa-argentina/